#1 Diário de um advogado criminalista: a distância para levar a justiça

Mais uma daquelas esposas me ligou, numa terça-feira qualquer, me dizendo que prenderam o amor da sua vida, LHC, sob a suspeita do delito de tráfico de drogas. Sem saber do que se tratava, perguntei de onde ela falava, ao passo que me respondeu que era da capital gaúcha, a qual fica cerca de 86km do meu escritório, localizado em Taquara/RS. Como não há distância física que impeça a formulação de contratos, fechamos o negócio. Restou que ela pouco sabia da situação dele, limitando-se apenas a me informar que ele estava preso preventivamente em Osório, cidade dos “bons ventos” como diria um poeta. Mas como não sou poeta, diligenciei como um vento para lá e fui em busca de verdades e soluções para o caso, afinal de contas, sem advogado, não há justiça.

Entrei naquela muralhada chamada Penitenciaria Modulada Estadual de Osório, localizada em zona rural sem nada por perto, apenas matagais, campos, matagais, campos, e pelo que vi… acho que nada mais e nada menos que uns 10 km até algum posto qualquer de atendimento (mercado, posto de gasolina, parada, tipo essas coisas)

Entrando lá, colhi a assinatura do rapaz, sem com isso saber o número do processo, apenas, segundo ele, que foi surpreendido na localidade de Quintão, além de me contar o restante da situação que gerou esse problema — e aqui abro parênteses, isso fica comigo, pois estou contado apenas contando uma história para ti, mas o sigilo sobre os fatos em relação ao cliente ficará resguardado comigo pela ética e sobriedade da advocacia, ok?

Continuando… Saindo de lá do presídio, eu estava quase a caminho de Tramandaí/RS, crente que o processo estava lá, mas parei o carro e com pouca bateria no celular busquei as comarcas próximas, pois suspeitava que o dito processo estava seguindo o seu percurso no fórum de Palmares do sul/RS, ou seja, eu teria que percorrer mais uns 60km. Resolvi, então, ligar para lá e a telefonista não queria me atender sob a mesma alegação de costume que já ouvi tantas vezes que até esqueci quantas foram: “só damos informações a partir das três e meia, senhor”, e na sequência respondi “três e meia? olha, agora é meio-dia, estou no meio do nada, preciso de uma informação e não seria racional eu ficar aqui plantado e esperar cerca de três horas e meia ou ir até aí, percorrer 120km (ida e volta), na incerteza do processo não estar aí, então, por favor, é uma situação excepcional, passe-me para o pessoal do cartório”, a moça foi solícita e fez o que eu pedi, fui bem atendido pelo cartório, expliquei a minha situação e eles me forneceram a informação: o processo estava lá.  Viu só? E não doeu nada. Às vezes é necessário dar aquela insistida, ou não conseguirá o que quer, capiche?

Em direção ao fórum e ouvindo boa música, jazia adiante, depois de uns 20km, uma estrada ruim, ruim, e ruim, pense numa estrada ruim.

Até que finalmente cheguei lá… cidade pequena, tranquila e bonita. Boa impressão tive.

Peguei o processo, apresentei a resposta da acusação que faziam a LHC. Como outro colega anteriormente havia feito um pedido de liberdade à juíza, eu deixei quieto e propus habeas corpus diretamente ao Tribunal Gaúcho, alegando que a magistrada, de modo genérico, havia decretado a prisão de LHC porque “a venda de substâncias entorpecentes é um dos maiores males que atinge nossa sociedade nos dias atuais.”

Mais de 300 km em um dia cansa, mas a caminhada pela justiça, às vezes, supera o físico; está além das forças, está nas virtudes!

Continua…

Continuarei na essa história na próxima publicação!

Até a próxima!

 


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