#2 Diário de um advogado criminalista: é cobrando que se aprende

A boa-fé é algo que não devemos perder, mesmo em tempos conturbados onde a regra — infelizmente — é a “lei da vantagem” e segue o jogo, baile, rumo, vida, seja o que for hehe. Tá na nossa cultura brasileira. Brincadeiras à parte, isso é sério e, mesmo assim, acreditamos nas pessoas, queremos acreditar, pois por mais honrosa que seja a profissão da advocacia, todos os advogados — não importa a área em que se atua —, se trabalha por conta própria e” tocar “o negócio sozinho ou gerenciá-lo em parceria, terá o que chamamos de “calote”.

E não, não estou agourando a sua boa ventura, não é nada disso, pelo contrário, desejo sucesso para ti, mas é muito sabido que todo empreendido oscila, varia, sobe e desce e por aí vai. E com o empreendimento advocatício não é diferente e depende muito dos bons meses, do prestígio das pessoas para contigo como advogado, mas depende também muito dos bons pagadores, afinal de contas, precisamos de receitas, de “dimdim” para manutenção do escritório e gastos pessoais.

Mas como cobrar na advocacia criminal?

E outra, como não ser cobrado? Isso mesmo, mas essa segunda pergunta será desenvolvida numa próxima vez (apenas para atiçar a sua curiosidade hehe)

Mas voltando à primeira pergunta, todo o advogado — e aqui ressalto o criminalista — se depara com três clientes: O cliente diretoindireto e o Estado.

Explico:

  • Cliente direto

O cliente direto é aquele que reponde uma investigação (indiciado), ação penal, (réu) ou execução penal (apenado), ou três juntos, é ele o sofredor das imputações do poder estatal e da sociedade (falo sério, sem ironismo).

  • Cliente indireto

Cliente indireto é a família, é aquele empregador que não quer perder seu melhor funcionário que apenas deu uma vacilada qualquer, um melhor amigo, enfim, todo aquele interessado no bem-estar do investigado, réu ou apenado.

  • Estado

Sim, quando se trata de advogado dativo, nomeado pelo magistrado, afinal de contas, ninguém pode ficar sem defesa, tampouco sem contraditar uma acusação; nossa Constituição Federal nos garante isso. Então, na prática, quando a Defensoria Pública não tem efetivo pessoal, ou até tem, mas o processo possui mais de um réu e suas versões colidem, chama lá o defensor dativo que ele segura a bronca.

Mas o que eu posso dizer nesse roteiro é que não existe mágica, nem fórmula dinâmica para cobrar alguém. Tal expertise se ganha com o tempo e, quando se trata de advocacia criminal, aconselho cobrar sempre um valor significativo de início, não comece a colocar a” mão na massa ” sem um sinal do cliente, a menos que você se compadeça de alguma situação esporádica e faça “pro bonamente”. Trabalhar de graça é permitido? Digo, para ajudar algum necessitado mesmo? É lícito, mas não aveze tal conduta, querendo ser um justiceiro (para isso existe a Defensoria Pública), pois tudo o que é demais faz mal, e a OAB não gosta nadinha disso, pois desonra a profissão, a qual cada vez deve ser mais valorizada, desonra o colega do lado que suou muito para passar em uma faculdade de direito e adquirir a carteira (a dita vermelhinha) para atuar e… ok, não é esse o tema. Percebes como entro em devaneios e saio do foco? Haha

Enfim, voltando no que diz respeito às cobranças de inadimplentes, olha, somente a experiência vai te conduzir nisso, há várias maneiras de se resolver isso, as quais cito algumas: 1) fazer nota promissória, 2) pedir para que compre mercadorias em lojas do varejo (tipo fogão, cama, televisor, geladeira etc, aí, depois tu revende do seu modo, ou fique para ti mesmo, peça para o cliente parcelar no crediário da loja; é uma forma lícita de transferir a obrigação, e, em outras palavras, é uma cessão de obrigação), 3) aceitar a título de dação em pagamento algum bem (alerta para isso! Quando se trata de bem que já estava com o cliente, exija a nota fiscal ou uma declaração feita pelo cliente da idoneidade do objeto, só para que digamos… futuramente não responda eventual ação penal de receptação, vale lembrar, o seguro morreu de velho), 4) aceite como modo de pagamento a prestação de serviços, talvez seu cliente tenha algum talento que lhe seja útil, 5) reparcelar a dívida, acrescentando alguns juros, et cetera, et cetera e et cetera.

Dê essas sugestões ao cliente direto ou indireto para solucionar esse impasse. Mas se nada disso adiantar, saia e parte pra outra, mermão(ã). Não fique nessa sofrência! Lembrando que ao sair, és ainda responsável no processo pelo prazo de 10 dias, salvo se o sujeito apresentar um novo advogado nesse meio tempo. Depois disso, adiós!

E é claro, é claro e é claro que muitas vezes o advogado não pode ser um carrasco e querer executar todo mundo; todo advogado deve estar sob o manto da empatia e entender o seu cliente. Pode ser que, ocasionalmente, seu cliente esteja passando por uma situação financeira difícil, mas que é momentânea, então, espere um pouco (um pouco eu disse, e isso não significa meio ano!)

E por fim, não tenha medo de cobrar, é direito seu! Tenha postura e sobriedade, seja firme, demonstre o seu valor e será visto como um bom advogado.

Bem, é isso!

Até a próxima!


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