#3 Diário de um advogado criminalista: se prometeu, cumpra!

Não serei muito extenso aqui, mas vou lhe dizer algo que talvez possa salvar sua carreira, senão sua vida (e não é exagero), isso é mais para quem trabalha na seara criminal, mas mesmo assim, você que não milita nessa área, não se sinta o patinho feio, pois talvez sirva para ti esse texto também. Não vou falar de mim dessa vez, mas sim de Dr. F.. “Mas quem diabos é Dr. F.” você pode me perguntar, e eu posso lhe responder que não é ninguém (português é estranho, pois se não é ninguém, logo, é alguém, sim, é alguém, mas não vem ao caso, pois não muda a história).

Dr. F. era um conhecido da faculdade, compartilhamos algumas disciplinas e alguns trabalhos em grupo. Era um cara “rápido”, se você bem me entende. Não perdia a oportunidade com uma garota, tirava uma vantagem e outra quando apenas lhe convinha, e era descolado. Acontece que ele estava na faculdade um ano a mais que eu, portanto, vestiu a toga e atirou o chapéu para o alto (literalmente) na formatura primeiro. No nono semestre já havia passado no exame da Ordem, bastando apenas colar grau para adquirir a dita vermelhinha. Provinha de uma família generosa a qual lhe ajudou a instalar um modesto escritório na cidade de Canoas, a quarta maior cidade do estado do Rio Grande do Sul.

Assim como eu, ele militava na área criminal, sim, conjugado no pretérito imperfeito (e eu ainda atuo nessa área para deixar claro hehe), pois não tenho mais notícias dele, e saberá o porquê disso. Montou um escritório bem equipado na cidade, contudo, ele se rendeu à “malandragem”, sendo um advogado profeta, isso porque ele começou a prometer resultado e, como todo mundo sabe, o trabalho do advogado é uma atividade de meio, não de fim.

Não é preciso saber desse nome técnico para entender que cada serviço proposto pelo advogado no processo é uma pincelada num quadro; o advogado dá uma pincelada aqui, o juiz ali, o promotor lá, o delegado um pouquinho mais em cima, o oficial de justiça um pouquinho mais embaixo, o oficial escrevente, o escrivão, o assessor, o estagiário, o réu, a testemunha, a vítima, o segurança e até a faxineira contribuem no quadro (sim, a faxineira, pois imagine se ela derruba o café na mesa do juiz e este irritado pressiona com mais força o pincel na tela da verdade processual). Portanto, são fatores para que, no final do processo, possa ser visto que desenho se formou. Se saiu perfeito que dá para ver o que é (condenação) ou se há dúvidas do que seja ou, ainda, nada seja, formando apenas rabiscos sem sentido (absolvição). Como uma pessoa como Dr. F. poderia prever todos esses resultados? Como ele poderia ver que desenho se formaria sem mesmo saber que contorno as outras partes tomariam? Dr. F. teve o que chamamos de sorte de principiante, pois no começo de sua carreira, quando prometia que iria tirar alguém da prisão, isso de fato acontecia. Por analogia, é como se alguém alegasse que irá chover, sem saber se de fato isso vai ou não acontecer, é um fator que não depende de sua vontade.

Acontece que a ganância dele enxertou, começando a cobrar honorários mais altos. Foi quando conheceu o Cliente W dentro de um estabelecimento prisional, o qual se encantou por saber que outros colegas de cela estavam dando tchau daquele lugar ruim. Ora, Cliente W também queria aquilo, só que Cliente W era barra pesada, daqueles que tem que cuidar o que fala, pois basta um deslize apenas para ele estalar os dedos e sumir com alguém.

Com a reputação que Dr. F. estava ganhando de “advogado bom, que tirara os cara da cadeia”, isso lhe trouxe mais confiança e Dr. F. cobrou um valor bem mais alto do que cobrava para impetrar um habeas corpus, pois sabia que Cliente W era um homem de muitos bens. Imagino até como foi a tratativa: “tá bem, eu pago esse valor, mas é certo, que tu me tira desse lugar?”, pergunta Cliente W, sem mostrar os dentes, “mas é claro, de imediato, promoverei o habeas, e logo logo, dará adeus para esse lugar”.

Não sei como foi o esquema, mas Cliente W mandou alguém de fora do presídio depositar o dito valor na conta bancária de Dr. F., e este cumpriu o que disse, fez o habeas corpus imediatamente, estudou o caso e compareceu na sessão do Tribunal para propor a sustentação oral. Restou que o habeas corpus foi negado… Cliente W deve ter ficado nervoso, P. da vida, só pode, pois ameaçou de morte se Dr. F. não lhe devolvesse o dinheiro. Dr. F. pediu para Cliente W se acalmar e prometeu recorrer do habeas corpus interpondo um Recurso Ordinário junto ao Superior Tribunal de Justiça, alegando que “desta vez, daria certo”. Nesse meio período, Dr. F. havia torrado boa parte do dinheiro pago pelo Cliente W.

Meus amigos, o recurso teve a ordem denegada também. O escritório de Dr. F. teve que fechar as portas da cidade de Canoas, pois ele sumiu do mapa, e até hoje querem o pescoço dele, porque ele prometeu um serviço por um valor muito alto tal como apresentasse uma casa construída, ou um curso acadêmico ministrado ou a fabricação de qualquer coisa. Tudo porque prometeu.

Assim, confesso eu que deixei de fechar negócios com clientes que poderiam me render bons honorários, simplesmente, porque eu fui ético e sóbrio ao responder que não poderia dar uma previsão exata de alguma decisão de habeas corpus. Evidente que cada caso é um caso, e há algumas situações onde está estampada a ilegalidade ou desnecessidade da prisão cautelar. Mas mesmo assim, “o peixe morre pela boca”, então, sempre é válido reforçar bons conselhos, nunca prometa nada para seu cliente, no máximo apresente uma possibilidade e diga que é assim que vem sendo julgado nos tribunais, e fará dentro do que for possível (pelos parâmetros éticos e morais). Nada de ser advogado profeta, que prevê o futuro do cliente, ou acabará como o Dr. F.

Bom, era isso.

Até a próxima pessoal!


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